ARTIGO – Mario Francisco Tessmann

Lutero e o Evangelho Bíblico

1 – Observações Iniciais:

 

A Alemanha no início do século XVI era um agregado de diversos pequenos territórios, governados por príncipes, duques e condes que tinham interesses políticos conflitantes. Não havia um estado alemão unificado. O que existia, na época, era o Sacro Império Romano-Germânico da Nação Alemã, uma espécie de federação, que reunia estes múltiplos territórios. Dentro do mesmo moravam em torno de 10 milhões de pessoas que falavam alemão, sendo que uma a cada dez residia em cidades, as demais, na área rural. A estrutura social era dividida da seguinte forma: a. os que fazem a guerra (os nobres), b. os que oram (os religiosos) e c. os que trabalham (os camponeses). Esta organização era entendida então como a ordem estabelecida por Deus, cujo lema era “Um Reino – Um Rei – Uma Fé”.

2 – Dados Biográficos em Contexto:

 

É dentro deste contexto que se insere a figura de Martim Lutero (1483-1546). Ele nasceu na cidade de Eisleben, em 10.11.1483. Sua infância e juventude foram como a de um homem medieval comum. Apavorado, no entanto, com a possibilidade de uma morte repentina, Lutero ingressou na vida monástica em julho de 1505, abandonando assim os seus estudos anteriores de Artes. Esta decisão tem a ver com o fato de que ele não se via devidamente preparado para estar perante Cristo, em Seu tribunal, por ocasião de sua morte. Em função disto, Lutero procurou seguir o caminho da perfeição, estabelecido pela Igreja na época, tornando-se monge. Com o decorrer do tempo, no entanto, ele percebeu que este rumo não lhe dava paz na consciência. Foi, então, que na leitura da Bíblia, Lutero compreendeu que o ser humano é alguém cativo dos seus próprios interesses, em todos os campos da vida, e que necessita ser liberto. Não há nenhuma lei ou igreja que torne as pessoas livres, apenas Jesus Cristo.

Lutero concluiu, então, que o ser humano é um ser aprisionado, encurvado em si mesmo, como ele gostava de dizer, que necessita ser liberto afim de que sua vida tenha sentido e direção. Esta libertação, por sua vez, é obra exclusiva de Jesus Cristo, que não inclui nenhum tipo de empenho humano, seja ele moral, intelectual ou ainda espiritual. Além deste aspecto pessoal, Lutero também negava a ideia de que o pertencimento a uma igreja organizada pudesse assegurar qualquer coisa, em termos de redenção humana. Até chegar a esta conclusão, Lutero atravessou um período de muitas lutas consigo mesmo, como também com a teologia e a igreja de sua época. Esta fase durou alguns anos. Vamos recapitulá-las brevemente.

Num primeiro momento, as crises de Lutero são mais pessoais. Nesta época, ele recebeu um intenso apoio de seu pai espiritual, um homem chamado João Staupitz. Este afirmava continuamente para Lutero de que ele deveria olhar mais para o Cristo crucificado, expressão do amor de Deus, do que para si mesmo e suas realizações.

Já na segunda etapa de seus dilemas, as questões que movem Lutero são mais teológicas e que envolvem também a situação miserável da Igreja na época.  Aqui cabe lembrar que em 1512, Lutero tornou-se doutor em Teologia. A partir daí ele assume a responsabilidade de expor a Bíblia aos seus alunos, a grande maioria, monges como ele. Durante os anos de 1513 até 1518, Lutero interpretou livros como os Salmos e Romanos. Ao longo de suas aulas no mosteiro, que começavam às 6hs da manhã, ele apresentou gradativamente as suas novas descobertas teológicas, que serão, em pouco tempo, as razões do maior conflito de fé na Igreja até então.

 

3 – O que é o Evangelho Bíblico?

 

Já vimos até aqui que Lutero foi expondo suas novas descobertas acerca do Evangelho em suas aulas de interpretação da Bíblia. Neste sentido, podemos perceber o quanto o surgimento da Reforma esteve vinculado desde a sua primeira hora à leitura zelosa das Escrituras. Não apenas Lutero, mas também os demais reformadores do século XVI foram leitores dedicados do testemunho bíblico. Estas pessoas queriam, não apenas compreender a Bíblia como texto religioso, mas sim, entender a causa da mesma: Jesus Cristo.

E quais foram, ou melhor, qual foi a descoberta que Lutero fez, que gerou o conflito religioso de maior expressão no Ocidente? Durante muito tempo, Lutero se confrontou com a passagem de Rm 1.17, onde está escrito que “o justo viverá por fé” e que esta é a justiça de Deus por excelência. Ele foi ensinado, na época, de que esta justiça de Deus era ativa e de caráter distributiva. Com outras palavras: alguém somente era justo perante Deus, se agisse de acordo com aquilo que Deus ordenava, recebendo Dele a justiça que lhe era devida proporcionalmente, conforme as suas atitudes e realizações.

No decorrer dos anos iniciais, Lutero foi compreendendo que a justiça de Deus não era de natureza ativa, mas sim passiva. Isto é, Deus declara justa a pessoa que Nele crê e não aquela que procura se aperfeiçoar intelectual e moralmente perante Ele, confiando no poder destas ações. Logo, ser justo diante de Deus é um ato exclusivo e soberano Dele e não uma gratificação pelas realizações humanas, por mais honestas que elas sejam. À luz desta descoberta, Lutero entendeu também que Deus, antes de exigir, agracia, e que o ser humano e o mundo vivem desta preciosa graça a cada novo dia. Esta percepção, ele chamou de ‘a abertura das portas do paraíso’.

Esta descoberta de Lutero é, em boa medida, uma retomada da compreensão do Evangelho, expressa por Paulo, no Novo Testamento, e pelo escritor antigo, chamado Agostinho de Hipona (354-430). Lutero vê que ambos confirmavam as suas ideias.

 

4 – As consequências para Igreja e Sociedade:

 

Enquanto isto, fora do mosteiro onde Lutero residia e lecionava, a vida da igreja e da sociedade seguia o seu passo a passo. Em função da necessidade de recursos financeiros para continuar a construção da catedral de São Pedro, em Roma, bem para pagar o enorme débito para com o banco dos Fugger, o papa da época, Júlio II, lançou mão da venda de indulgências, que era uma possibilidade de perdão dos pecados, concedida pela Igreja.

Quem assumiu a incumbência de vender as indulgências nos arredores da cidade de Wittenberg, foi o monge dominicano João Tetzel. Ele costumava dizer que, quando a moeda caía dentro do cofrinho de arrecadação, a alma saltava do purgatório para o céu…  Quando a venda de indulgências chegou, então, à pequena Wittenberg, de aproximadamente 2.500 habitantes na época, Lutero reagiu aos abusos da venda de indulgências, publicando as 95 teses em 1517. Estas teses geraram forte discussão dentro de boa parte da Europa.

Já em 1518, Martim Lutero foi posto sob suspeita de heresia, em virtude das suas posições. As críticas de Lutero sobre o poder do papa o colocam cada vez mais em rota de colisão com Roma. A partir de agosto de 1518, Lutero recebe um comunicado, que exige que ele se retrate nos próximos 60 dias de suas posições.

Contudo, em função da intervenção de seu governante regional, o príncipe Frederico, a Lutero foi dada a garantia de que ele não seria levado a Roma para ser julgado. Sua situação seria examinada e sentenciada em território germânico.

A descoberta do Evangelho por Lutero começa a gerar intensas polêmicas. Boa parte da liderança religiosa e política da época quer silenciá-lo. Em visto disto, ele é ameaçado de exclusão da Igreja e banimento da sociedade em junho de 1520, por meio de um documento do papa, chamado Bulla.

O ano de 1520 não foi apenas de intimidações, mas foi também de intensa produção literária. Ao longo destes doze meses, Lutero escreveu quatro livros, que ficaram conhecidos como o ‘Programa da Reforma’. Eles são os seguintes: Da Liberdade Cristã, À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O Cativeiro Babilônico da Igreja e das Boas Obras. Neles, ele apresenta suas ideias de liberdade, de sacerdócio de todos os cristãos e reforma da sociedade, de sacramentos e de ética. Nos anos que virão, Lutero vai ocupar-se com estes tópicos e desenvolvê-los. Vejamos agora, no entanto, o que ocorreu com Lutero, quando do término do ano de 1520 e início do ano seguinte.

Em janeiro de 1521, ele foi expulso da Igreja e considerado, conforme as normas jurídicas da época, também um ‘fora da lei’ pelo Império Romano-Germânico. Na prática, ele tornou-se um ‘sem igreja’ e ‘sem cidadania’. Cabe, no entanto, lembrar aqui que Lutero não foi o primeiro, nem o último a sofrer tal tipo de perseguição. Cristãos, em épocas anteriores, já haviam passado por semelhante situação, como por exemplo, o inglês John Wiclif e o tcheco Jan Huss. Era firme convicção dele de que o Evangelho e a cruz não se separam. Como Lutero costumava dizer: ‘não é preciso procurar a cruz, ela vem naturalmente com o Evangelho’.

“Volto para minha casa, minha família, meus amigos e minha igreja diferente, na vontade de fazer a diferença para o meu país e para o mundo.”

Volto para minha casa, minha família, meus amigos e minha igreja diferente, na vontade de fazer a diferença para o meu país e para o mundo. Que não nos conformemos com a situação atual, mas que lutemos para viver em comunhão e fazendo mais discípulos! Romanos 12.2 diz: “Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a Ele”. Foi isso que Jesus nos ensinou a fazer como podemos ver na grande comissão em Mateus 28.18-20 lemos: ”Então Jesus chegou perto deles e disse: Deus me deu todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores, batizando esses seguidores em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a obedecer a tudo o que tenho ordenado a vocês. E lembrem disto: eu estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos”.