Abraão e os 300

“Fazemos o que fomos treinados a fazer. O que fomos gerados para fazer. O que nascemos para fazer”.

Grécia, 480 AC. Na Batalha de Termópilas, o rei Leônidas e seus 300 guerreiros de Esparta lutam bravamente contra o numeroso exército do rei Xerxes. Após três dias de muita luta, todos os espartanos são mortos. O sacrifício e a dedicação destes homens uniu a Grécia no combate contra o inimigo persa.

No entanto, essa história dos 300 não é exclusividade da Grécia. A narrativa bíblica já contava um enredo muito semelhante bem antes do cinema.

O primeiro livro da bíblia conta que Abrão foi chamado por Deus para deixar sua casa e partir para uma terra que o próprio Senhor mostraria a ele, sob a orientação de que deixasse tudo para trás – parentes inclusive. Contrariado ele leva um dos seus sobrinhos, o qual mais tarde iria causar algumas dores de cabeça para Abrão. Um dos incômodos se deu quando ambos tinham tantos rebanhos ao ponto de a terra em que habitavam não ser mais suficiente para alimentar os animais. Abrão e Ló começaram a competir por espaço, pastagens e água o que gerou uma briga familiar que culminando com a separação deles.

Contudo, o tio resolveu o conflito de uma forma muito sábia, deixou que o sobrinho escolhesse o local em que gostaria de morar. Por questões óbvias, ele logo escolheu o melhor lugar, com as melhores pastagens e maior quantidade de água: as planícies de Sodoma e Gomorra.

Enquanto isso, os reis de Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Zoar, descontentes por terem sido subordinados aos reis orientais uniram-se em uma aliança e partiram para a guerra. O rei Quedorlaomer não podia permitir que tal rebelião ficasse impune, por isso fez uma aliança com outros três reis e marchou para a batalha em busca do controle da terra pela qual devia passar o comércio entre o Egito e o lado oriental. Essa coalizão de quatro exércitos arrasou todas as cidades por onde passou. Já no primeiro confronto contra os rebeldes, o rei Quedorlaomer os derrotou e somente alguns sobreviventes conseguiram fugir. Os vencedores saquearam as cidades e levaram cativo o povo derrotado.

No meio de tudo isso, encontrava-se Ló, com todo o seu rebanho e riqueza. Tudo o que ele parecia ter ganho ao levar vantagem sobre o tio foi perdido num instante. Sua “sábia” decisão, baseada em seus interesses econômicos, de escolher a melhor parte da terra provou-se desastrosa. Ele foi capturado e perdeu tudo.

Abraão já havia passado por várias provações durante sua caminhada com Deus, mas envolver-se numa guerra mundial contra quatro exércitos que tinham destruído tudo por onde passaram só para salvar um sobrinho era loucura demais! Apesar de todas as desculpas possíveis, ele escolhe entrar na briga.  O tio não tinha um contingente capaz de lutar frente a frente com os exércitos que levaram o seu sobrinho cativo. Agora seus homens provavelmente não tinham sequer a motivação necessária para tal empreitada, visto que muitos eram, os mesmos envolvidos naquela briga por pastagens e água. Apesar disso, bastou uma palavra de Abraão para que 318 homens treinados e preparados para a guerra aparecessem. Abraão poderia ser qualquer coisa, menos um homem preguiçoso que se escorava na promessa de multiplicação dada por Deus. Ele era um homem poderoso com uma tropa pronta para a guerra e estava preparado.

O pequeno exército marchou por mais de 400km, só na viagem de ida, para enfrentar quatro exércitos muito mais fortes e numerosos. Abraão, ao que parece, tinha uma poderosa mente militar. Isso fica evidente no fato de ele ter dividido o seu exército e realizado os ataques à noite. Brilhante! Ele empreendeu uma marcha forçada e um ataque surpresa de diferentes posições. A perseguição foi vigorosa e extensiva, até que a vitória fosse completa e os despojos inteiramente recuperados. Tudo isso para resgatar um parente que havia, anteriormente, escolhido as melhores terras e deixado o tio no deserto.

Os 318 soldados não só derrotaram os quatro reis como trouxeram de volta o sobrinho, sua família e todos os seus bens. Abraão teve de derrotar quatro nações que tinham vencido outras cinco. Ou seja, ele derrotou nove nações de uma só vez com apenas 318 homens. Que coragem! Que insanidade!

Esse ato heroico de Abraão e seus 318 homens reflete diretamente o sacrifício de Cristo. Jesus não se sentou de braços cruzados esperando pela nossa redenção. Pelo contrário, Jesus sabia que seria uma luta desigual, na qual Ele só enfrentaria sofrimento e dor. Mesmo assim, Ele escolheu abandonar toda a glória do céu para vir ao nosso encontro e nos resgatar da morte.

Jesus, muitos anos mais tarde, nos daria a resposta. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.” João 15:13. Se Abrão não tivesse sido louco o suficiente, Ló teria morrido. Se Jesus não tivesse sido louco o suficiente, nós estaríamos mortos.

Como funciona com você? Você pensa duas vezes antes de ajudar alguém simplesmente por medo de se envolver ou, como Abrão, não mede esforços para trazer de volta aqueles que estão perdidos?

Nos nossos grupos de células temos várias pessoas que já vieram e, como Ló, escolheram caminhos longe de Deus. Alguns até abandonaram completamente a comunhão com o Senhor. A bíblia está cheia de relatos semelhantes a esse. Mas nós vamos deixar que se percam na escuridão do mundo lá fora? Vamos nos esconder atrás de desculpas do tipo “ele já tá bem grandinho pra se virar sozinho” ou “não consigo ajudar. Outros mais capazes vão fazer isso”?

Cuidar uns dos outros vai muito mais além do que simplesmente se importar. Implica em rir juntos, mas também chorar juntos. Implica em irmos em direção aos outros sem esperar que eles venham em nossa direção.

Nosso papel como servos de Deus é amar o perdido a tal ponto de não nos importarmos com nós mesmos. Demonstrar gratidão ao sacrifício de Jesus é honrá-lo fazendo o mesmo.

“Procurei entre eles um homem que erguesse o muro e se pusesse na brecha diante de mim e em favor da terra, para que eu não a destruísse, mas não encontrei nem um só.” Ezequiel 22:30

 – Quem é o seu “Ló”?

Jonatan Neumann

Coordenador de Ministérios ME

sexta-feira, 19 julho 2019

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